POV


A vítima geme sem saber que seu choro reprimido só serve como motivação para o assassino, que encontra na vingança crua a única maneira de sanar suas inquietações. Não que ele não soubesse que havia uma série de outras maneiras de atingir paz mental, mas a criminalidade surgira como a mais efetiva delas. No entanto, a mulher encolhida no chão à sua frente não sabe disso; vê nele nada mais que uma mente desequilibrada, perturbada e profundamente imersa em uma sociedade repleta de desigualdades alarmantes (e, até certo ponto, ela está correta). Mas há mais por detrás das cortinas fétidas que encobrem a história do agressor: há vida, como a que ela sabe que está prestes a perder. Há medo, como o que ela sente. Há dor, como a que ela queria que parasse. 

Mas não para, até que ele se aproxima, sorri laconicamente e, com um golpe experiente digno de alguém que há muito tempo já sabia manejar uma faca pontiaguda, acaba com o sofrimento dela: a mulher se contrai no primeiro momento, mas seu corpo relaxa um casal de segundos depois. Ele faz questão de observá-la longamente, como se cobiçasse um tesouro. E era exatamente aquilo que ela se tornara: uma joia pessoal, dotada do mais valioso valor agregado. Ela era a junção de anos de frustrações, de humilhações, de ódios armazenados reconditamente para ninguém roubar. A morte dela significava o fim de uma era miserável e o início de uma vida menos conturbada, ao menos na mentalidade do criminoso, que acabava de realizar um desejo de anos. 

Ele se levante e parte, orgulhoso. 

**
O assassino se aproxima ameaçadoramente sem saber que a vítima já está apavorada com distância inicial. Seus olhos se entrelaçam e ela cria em instantes diversos cenários para o que estava prestes a acontecer, todos dotados de fins fétidos: pensa em morte e dentro de si surge uma inquietação. Faz o possível para encontrar em seus últimos minutos alguma paz mental, mas falha; ele resmunga meia dúzia de palavras ininteligíveis e ela começa a implorar baixinho pelo resquício de vida que ainda resta. Encara-o e não vê nada mais que um criminoso incapaz de sentir compaixão, uma mente encoberta pelas cortinas de frustrações deixadas por uma sociedade desequilibrada. 

Ele avança, fazendo-a a sentir o cheiro de um final conturbado. Será que ele não percebe que ela era uma pessoa importante, rica, cheia de amigos influentes? Sua vingança viria, expondo o assassino a uma série de humilhações. Enquanto ela pensa, ele tira uma faca das vestes. Quando ele chega perto a ponto de conseguir golpeá-la, ela nota que o mais estranho é que ele parecia reconhecê-la e que estava prestes a realizar um desejo de anos. A mulher se contrai no primeiro momento, mas seu corpo relaxa um casal de segundos depois. Não sente dor, nem medo, nem vida. 

Ela encontra o chão e assim permanece, tranquila.

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